Samuel Beckett e Gil Vicente “unem-se”em produção própria do TNSJ
Em cena até dia 22 de dezembro, no TeCA, o espetáculo junta também Nuno Carinhas e Pedro Sobrado no conceito e dramaturgia.


2018.12.13

O que terão em comum Samuel Beckett e Gil Vicente? Além de leitores das Escrituras e cultores da forma breve, ambos os dramaturgos são referências incontornáveis no percurso do encenador Nuno Carinhas, diretor artístico do Teatro Nacional São João (TNSJ). É desta união dos dois autores – Samuel Beckett, um dos inventores do designado teatro do absurdo, e Gil Vicente, reconhecido como o primeiro dramaturgo português – que se constrói a próxima produção própria do TNSJ, a última de 2018. Uma Noite no Futuro estreia-se hoje, no Teatro Carlos Alberto (TeCA), com encenação, cenografia e figurinos de Nuno Carinhas que partilha o conceito e a dramaturgia da peça com Pedro Sobrado, presidente do Conselho de Administração do TNSJ.

Uma Noite no Futuro é, de acordo com o encenador, “uma colagem” por resultar da ligação de “fragmentos que se podem juntar para criar um outro universo”. Por fragmentos entendam-se as três obras escolhidas para a construção da base deste espetáculo que dá um enfoque particular à memória. Velha Toada e A Última Gravação de Krapp, ambas da autoria de Samuel Beckett, sublinham esse conceito da recordação: a primeira obra é uma reescrita do dramaturgo de uma peça radiofónica de Robert Pinget, na qual dois velhos lembram o passado enquanto o mundo moderno, sob a forma de ruídos e motores, lhes passa ao lado. Já no monólogo da A Última Gravação de Krapp, há um confronto do presente com o passado (com a personagem a projetar-se no futuro): um homem que dialoga, no seu 69º aniversário, com uma gravação que fizera trinta anos antes, escarnecendo de si enquanto jovem.

Com o texto de Auto de Fé, um quase secreto dramatículo de Gil Vicente, Uma Noite no Futuro eleva-se para um conceito de “memória de uma universalidade”, dada através da religião que tem feito parte da cultura ocidental. Tendo-se estreado no Natal de 1510, Auto de Fé é um texto breve, com 123 versos em português e 211 em “saiaguês”, um dialeto rústico, que se aproxima do castelhano. Nesta encenação de Nuno Carinhas, a língua é utilizada por dois pastores simplórios que vão ter apenas como interlocutora a Fé, uma figura alegórica que fala em português e é a única personagem feminina do espetáculo. Havendo uma vontade de explorar a virtude da linguagem, Auto de Fé envolve o público no cómico da ignorância e simplicidade dos que falam saiaguês e do registo mais sábio da doutrina da Fé, que fala em português.

Este conceito de apelo à memória fez também parte do trabalho de idealização da cenografia e de figurinos levado a cabo por Nuno Carinhas. Em cena, surgem adereços já utilizados em espetáculos de outras produções do TNSJ. São exemplo disso: um alguidar da peça Alma, o beliche de Breve Sumário da História de Deus, a porta de Exactamente Antunes e um tapete de Tio Vânia.

Em cena até ao dia 22 de dezembro, Uma Noite no Futuro pode ser vista à quarta-feira e sábado, às 19h00; quinta e sexta-feira, às 21h00; e ao domingo, às 16h00. A récita de dia 14 de dezembro conta com uma conversa pós-espetáculo com José Augusto Cardoso Bernardes (Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Nuno Carinhas e Pedro Sobrado. A sessão de dia 16 dezembro terá tradução simultânea em Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição. Por fim, na última récita, o TNSJ “dá” Carta Branca, uma iniciativa destina a crianças maiores de quatro anos que inclui babysitting e oficinas enquanto os pais assistem ao espetáculo, tendo um preço de inscrição de 2,50 euros.

O preço dos bilhetes para Uma Noite no Futuro é de 10 euros, havendo uma subscrição dupla para quem quiser assistir à reposição de Otelo, de William Shakespeare, uma produção do TNSJ que se estreou no final de setembro e que volta à programação da Casa entre 5 e 20 de janeiro. A entrada para as duas peças é de 12,50 euros.